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domingo, 9 de maio de 2010

Dialética, Diálogo e Conversa - Parte I

Luiz Antonio Botelho Andrade & Edson Pereira da Silva
Publicado: Revista Educação Brasileira (CRUB), No 55, V.27, p. 51-77, 2005.
Texto completo, disponível em (http://www.crub.org.br/admin/publicacoes/revista_55.pdf)

Parte II - Parte III - Parte IV

Resumo
Neste ensaio as contribuições de Paulo Freire e Humberto Maturana são abordadas e comparadas ressaltando as consonâncias e as dissonâncias entre ambos e as conseqüências decorrentes disso para educação. Para tanto, foram utilizadas as categorias dialética, diálogo e conversa com as quais são analisadas as questões do conhecimento, da autonomia do sujeito, a relação com o outro e o compromisso social. A conclusão principal deste ensaio é que o eixo unificador da vida e obra de Freire e Maturana é uma emoção fundamental ao ser humano que permite a aceitação do outro, enquanto legítimo outro, na convivência. Assim, concordando com Maturana e Freire, ultrapassam-se as três categorias fundadas na linguagem e tenta-se uma síntese que possa unir razão e emoção de modo a avançar para além da interpretação racional e para além da ação emocional, buscando a construção de uma nova práxis epistemológica.
Palavras-chave: dialética, diálogo, conversa, emoção e amor.

1- Introdução
Quando a obra de um autor ganha dimensão universal e se mantém perene, é freqüente a produção de genealogias e cartografias que buscam demarcar o contexto histórico, na tentativa de revelar o momento criador e, mais importante, compreender a heurística, base de formulação de novas perguntas e novas criações.

Este ensaio não chega a ser um trabalho de demarcação genealógica ou cartográfica. Ele pretende, simplesmente, abordar as contribuições de dois ícones do pensamento latino americano - Paulo Freire e Humberto Maturana - ressaltando as consonâncias e as dissonâncias entre ambos no campo epistemológico e as conseqüências decorrentes desse campo na práxis educativa.

Antes da análise comparativa de algumas das contribuições destes dois autores para o pensamento universal é importante focalizá-los biográfica e contextualmente.

2- Paulo Freire

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) nasceu de uma família de classe média, na cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco. Ele afirma que seus pais lhe deram um belo testemunho de respeito e querer-bem e que isto o marcou para sempre. Paulo conta que viveu com grande dificuldade na infância, particularmente no período da grande crise de 1929, quando morava em Jaboatão. Ainda que tenha sofrido algumas dificuldades iniciais para estudar, formou-se em Direito, mas optou por não exercer essa profissão. Envolto em outra paixão – a educação – dedicou-se primeiramente aos problemas de gramática e linguagem, tornando-se professor de língua portuguesa aos 19 anos. Mais tarde, já trabalhando no Serviço Social da Indústria (SESI), sentiu-se desafiado por várias questões político-educacionais, especialmente, o analfabetismo. Da preocupação à ação, Paulo Freire envolveu-se inteiramente com a alfabetização de adultos. A partir de suas reflexões e de sua experiência adquirida, produziu um caminho pedagógico em que o alfabetizando fosse capaz de apropriar-se criticamente do próprio processo de alfabetização, como um ato de sua criação (Gadotti, 1996; Freire, 2002a; Blois, 2005).

Mais tarde, início da década de 60, já tendo desenvolvido o Método que o tornaria internacionalmente conhecido e estando engajado em ações educativas que demonstravam que a leitura da palavra não poderia estar desvinculada da leitura do mundo, foi considerado, na época, como subversivo pelo regime militar iniciado com o golpe de 64. Foi preso e, mais tarde, obrigado a exilar-se. Depois, já na condição de exilado, Freire nunca perdeu seu compromisso com os excluídos, estando eles na Bolívia, Chile, México, Estados Unidos ou em qualquer lugar do mundo. Por suas andanças e práxis libertária transformou-se, assim, em um andarilho da esperança (Freire, 2002a; Blois, 2005).

Depois do seu retorno ao Brasil, após 16 anos de exílio, manteve sua coerência política e seu grande compromisso com a causa da educação. Atuou de forma intensa em vários lugares e de muitas formas, seja como militante, professor, administrador e escritor. Pouco antes de sua morte, ocorrida no dia 2 de maio de 1997, Paulo Freire teria dito: “Eu nunca poderia imaginar a educação sem amor. Sou um educador, acima de tudo, porque amo” (Mayo, 2004).

3- Humberto Maturana

Humberto Maturana Romesín nasceu em Santiago do Chile, em 1928, de uma família de classe média. Tendo em vista a separação de seus pais, ainda na infância, Maturana foi criado quase que exclusivamente por sua mãe, de quem guarda lembranças de uma relação amorosa e de grande respeito para com a autonomia dos filhos, fatos estes que o marcaram profundamente por toda vida. Da convivência amorosa com a mãe, aprendeu, desde cedo, que as coisas boas que lhe acontecem são presentes da existência. Da sua autonomia estruturada na relação materna, aprendeu, desde cedo, o senso de responsabilidade para consigo, para com os outros e para com a vida. Uma passagem marcante na vida de Maturana e que expressa parte do que foi dito antes é relatada pelo próprio autor: “aos oito anos de idade, minha mãe se aproximou de mim e de meu irmão e fez o seguinte comentário: ‘filhos, não existe nada que seja por si só, bom ou ruim. Caberá a vocês interpretar a situação do momento e tomar a decisão. Agora, voltem a brincar’”.

Maturana estudou medicina no Chile até o 4o ano e graduou-se em biologia, na Inglaterra. Doutorou-se na Universidade de Harvard e participou de um dos mais famosos grupos de neurobiologia da década de 50. Sua curiosidade científica foi despertada, desde muito cedo, para duas questões fundamentais - a percepção e as relações constitutivas dos seres vivos. A partir das reflexões suscitadas por estas duas questões, Maturana elaborou todo um arcabouço teórico denominado Biologia do Conhecer. Através deste arcabouço teórico o autor rompeu radicalmente com o sentido habitual da noção de cognição - entendida como captação e processamento de informações do mundo exterior pelo organismo – e, no bojo desta ruptura, nos ofereceu um novo paradigma para compreensão deste fenômeno. Para este novo paradigma a cognição é a ocorrência de um duplo ato de criação (poiesis) que configura tanto o vivo quanto o mundo. Se o mundo em que vivemos é criado com o nosso próprio viver, surge a indissociabilidade entre viver, fazer e conhecer. Neste sentido, não se pode mais evitar a analogia do fenômeno do conhecer com o trabalho do artista, pois só se conhece assim: em ato de criação – ato radical, porque nada preexiste a ele - nem o vivo, nem o mundo.

A aceitação deste modelo explicativo traz enormes conseqüências para o nosso ser e para o nosso fazer cotidiano. Assim, no campo educacional, rompe-se com a idéia de instrução e/ou de transferência de informações de um emissor (professor) para um receptor (aluno), radicalizando o que se entende por construtivismo. Enquanto uma reflexão sobre o conhecer, surge uma epistemologia que leva em conta a biologia do observador. Enquanto uma reflexão sobre as relações humanas, surge uma explicação original para o fenômeno da linguagem. Como a linguagem só pode surgir com a aceitação da legitimidade do outro, fundado na relação, ressalta-se a essencialidade do amor e da ética para o surgimento do fenômeno social. Para além destas temáticas, o novo instrumental teórico tem permitido o estudo de outras questões até então pouco abordadas como a consciência e a relação mente/corpo (Maturana, 1989, 1997a, 1997b, 2001; Maturana & Poerksen, 2004).

Maturana vive em Santiago do Chile onde criou, junto com Ximena D’ávila, o Instituto Matriztico (http://www.matriztica.org). Neste novo espaço reflexivo Maturana e colaboradores vêm trabalhando para o entendimento do que eles denominam de matriz biológica da existência humana.

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